Nunca fui do tipo de pessoa que se apaixona fácil. Posso contar em uma mão a quantidade de caras que realmente gostei durante a vida. Sempre tive um certo orgulho em dizer que meu coração era bem treinado, disciplinado até.
Eu gostava da ideia de ter controle sobre mim mesma, de saber exatamente o que queria e, principalmente, o que não queria. Não que eu nunca tivesse sentido algo forte por alguém, mas aprendi cedo que algumas paixões podem ser tempestades disfarçadas de brisas leves.
Vi isso acontecer com pessoas próximas. Vi o brilho nos olhos de amigas minhas se apagando depois de um envolvimento intenso demais, de expectativas frustradas, de noites passadas encarando uma tela de celular que nunca piscava de volta. Eu nunca quis ser essa pessoa, então, fazia o máximo que podia para não ser.
Aos 22 anos, eu acreditava que já tinha entendido algumas coisas sobre a vida. Entre elas, a mais importante: evitar problemas disfarçados de paixões que tinha certeza de que seriam passageiras.
Minha rotina, assim como minha vida toda, era previsível. E eu gostava disso. Trabalhava e estudava durante a semana, e nos dias de folga, dividia o tempo entre os amigos e o descanso necessário para encarar a próxima semana exaustiva.
Era às sextas-feiras que eu costumava encontrar meu grupo de amigos. Não éramos inseparáveis, mas havia uma constância no que tínhamos. Nos reuníamos em algum bar qualquer do centro da cidade, repetindo conversas e gargalhadas, contando as mesmas piadas, como um ciclo confortável que ninguém tinha coragem de quebrar.
Naquela noite, o bar estava lotado. O cheiro de cerveja misturava-se ao perfume barato de cigarros que alguém fumava perto demais. As vozes se sobrepunham, criando aquele típico burburinho que fazia tudo parecer uma grande confusão — mas de alguma forma, uma confusão familiar.
Foi nesse contexto que eu o vi pela primeira vez.
Calça jeans escura, blusa preta e um cabelo perfeitamente escovado, como se nunca tivesse sido tocado. Ele não precisou dizer nada para ocupar o espaço. Algumas pessoas fazem isso — preenchem o ambiente antes mesmo de abrir a boca. Daniel era uma delas.
Alto, despretensioso, com um sorriso fácil e um jeito de rir como se tudo ao seu redor fosse um grande espetáculo particular. Ele parecia existir em uma bolha própria, onde cada detalhe do mundo girava ao redor do seu humor imprevisível.
Ele não era bonito no sentido convencional, mas carregava aquele tipo de presença magnética que fazia as pessoas prestarem atenção. Talvez fosse a maneira como gesticulava enquanto falava, ou como parecia sempre ter uma resposta rápida para qualquer comentário. Não demorou muito para que eu percebesse que ele era o tipo de cara que estava acostumado a ter todas as atenções voltadas para si.
— Cora, esse é o Daniel, meu amigo do ensino médio — disse Jean, um dos caras que aparecia de vez em quando nos nossos encontros.
Daniel virou-se para mim com naturalidade, um meio sorriso no rosto, e inclinou-se para me cumprimentar com aquele “beijo” no rosto que era mais um encostar de bochechas do que qualquer outra coisa.
— Prazer, Cora. — Sua voz tinha um tom levemente arrastado, como se carregasse um sorriso oculto. — Tu é muito bonita.
Ele disse isso baixo, de propósito, no instante exato em que nossos rostos se encontraram. Isso me fez desprezá-lo imediatamente. Não pelo elogio em si, mas pela certeza com que ele o fez. Como se já soubesse que era algo que eu esperava ouvir. Como se tivesse dito a mesma coisa para outras mulheres antes, com o mesmo tom ensaiado.
Daniel era tudo o que eu evitava. Exibido, exageradamente sociável, do tipo que parecia sempre saber o que dizer para cativar qualquer um. E, ainda assim, eu o observei pelo resto da noite. De canto de olho, disfarçando.
Foi quando algo estranho aconteceu.
Eu esperava vê-lo performando o papel de sempre: o cara que falava alto demais, que fazia piadas exageradas, que colecionava olhares femininos. Mas, em um momento qualquer, quando ninguém estava prestando atenção, vi algo diferente.
Uma pausa.
Por um segundo, ele desviou o olhar do grupo e encarou o nada. Não parecia mais o Daniel que ria de tudo. Havia algo perdido ali.
Então ele percebeu que eu o observava e sorriu, voltando a ser exatamente quem eu achava que ele era. Acho que foi aí que começou.
Não com um olhar, nem com uma troca de palavras significativas. Mas com uma irritante e insistente vontade de entender o que havia por trás daquele personagem tão bem construído.
Confesso que isso desafiou meu lado que sempre busca um mistério para resolver.
E os meses passaram assim entre a gente…
Encontros casuais, conversas carregadas de ironia e implicância, e aquele magnetismo irritante que parecia nos empurrar sempre um para o outro. Não havia profundidade entre nós, apenas provocações jogadas no ar como migalhas de um jogo que nenhum dos dois admitia estar jogando.
Ainda assim, toda sexta-feira, eu me pegava ansiosa, escolhendo a melhor roupa, passando maquiagem com mais cuidado, ajustando o cabelo até que parecesse perfeitamente desarrumado. Tudo isso porque, no fundo, eu sabia que iria vê-lo.
E nas vezes que ele não aparecia? Eu me sentia ridícula. Irracionalmente chateada. Como se algo essencial para a minha noite tivesse sido tirado sem aviso prévio. Mas eu nunca admitia.
Preferia fingir que não percebia sua ausência, mesmo quando passava os olhos pelo bar algumas vezes, procurando — sem querer — aquele rosto que eu tanto dizia odiar. Passava a noite inteira ansiando alguma frase irritante que eu pudesse rebater.
Eu dizia para mim mesma que ele não significava nada, mas, ainda assim, procurava por aquele olhar despretensioso cruzando o meu. Tinha vezes nas quais eu podia jurar que o flagrava tentando me encontrar em meio às outras pessoas.
Esperava dias pelo pequeno momento da noite em que nossos caminhos se cruzariam e eu poderia fingir que não me importava, mesmo quando todo o meu corpo denunciava o contrário.
O pior era pensar que, para ele, eu era apenas mais uma. Que enquanto eu gastava tempo demais me preparando, ele provavelmente nem se importava tanto assim com a minha presença.
E o mais irritante era que, ainda assim, eu não conseguia evitar.
Eu já tinha visto Cora antes. Muito antes do Jean nos apresentar naquela noite. Na verdade, eu a havia notado há semanas.
Sempre na mesma mesa, com os mesmos amigos, rindo baixo e gesticulando com as mãos quando se empolgava contando alguma história. E não posso deixar de citar o fato de que ela era a mulher mais linda que eu já havia visto.
Mas o que realmente me chamou atenção? A forma como, para ela, eu era inexistente.
Eu estava acostumado com os olhares das mulheres me encontrando no bar. Não era arrogância — era apenas um fato. Elas sempre notavam minha presença. Algumas disfarçavam, outras nem tanto.
Mas Cora? Ela não me olhava. E isso me incomodou. Eu queria saber o que se passava na cabeça dela. Queria saber se ela realmente não me via ou se fingia não ver.
Então, um dia, depois de semanas observando de longe, chamei Jean no canto.
— Quem é aquela ali? — perguntei, apontando discretamente.
Jean olhou para a mesa dela e riu.
— Cora?
Assenti, tomando um gole da cerveja.
— Ela nunca olhou pra mim.
Jean riu de novo.
— Cora não é do tipo que se impressiona fácil.
Levantei uma sobrancelha, interessado.
— Isso quer dizer que ela já me viu?
Ele deu de ombros.
— Talvez. Mas se ela fingiu que não, é porque decidiu que tu não é interessante o bastante pra chamar a atenção dela.
Aquilo foi um golpe no ego. E, ao mesmo tempo, me fez querer conhecê-la ainda mais.
— Me apresenta.
Jean me olhou como se eu fosse maluco.
— Sério?
— Sério.
Ele balançou a cabeça, mas riu, pegando a cerveja antes de levantar.
— Tá bom. Mas já aviso: Cora é cabeça dura. Se não quiser saber de ti, não tem nada que tu possa fazer pra mudar isso.
O que ele disse só fez minha vontade de conhecê-la aumentar.